segunda-feira, dezembro 13, 2010

Claustrofobia.

Pela janela. Um senhor caminhando com um cachorro, uma senhora sentada no banco, uma criança correndo na frente da mãe, um carro vermelho sendo multado por estacionar em local proibido, as nuvens esforçando-se para deixar alguns raios de sol passarem. Mormaço.
Sophia na janela. Dói-lhe a cabeça. Luta para não se render às aspirinas, tentando descobrir o porquê da cefaléia. Vez ou outra funciona. Quando descobre algo excessivamente inacabado em seus pensamentos, a cabeça já não precisa mais doer para lembrá-la daquilo, e então consegue curar a sua própria dor. Pelo menos a da cabeça.
Mentalmente retoma os últimos acontecimentos e impressões, quando é acometida por uma invasão de lucidez. Um raio de sol lhe passa pela cabeça, com a autorização das nuvens de seus pensamentos. E, ao olhar pela janela, vê um borrão. (Sim, um borrão. Quando se vê as coisas nitidamente é quando menos se enxerga). Não vê a vida passar, mas vê a vida ficando. As coisas e as pessoas (qual é mesmo a diferença?) ganham tons fortes, cores salgadas, brilhos opacos, movimentos articulados.
Pensa: – “Será?” - Sophia era moça de duvidar dos pensamentos pelos quais era acometida, por mais verdadeiros que parecessem. (Quando se pensa com clareza, é quando mais se engana).
As coisas ganharam vida ou seria ela Sophia que havia ganho um olhar? Porque, oras ... ver e olhar são coisas muitos diferentes. E é esse o pensamento que a toma: que ganhara um relâmpago de olhar. Olhar é coisa que ultrapassa o sentido da visão.
- “Olhar arrepia, né?” – pensa alto, na tentativa de duvidar menos de si. “Difícil isso de olhar as coisas fora de você. Dá até uma dorzinha cretina no peito... que não é ruim.”
As vezes Sophia é tão ensimesmada que se esquece que as coisas ao seu redor também têm vida.
Faz tanto esforço para se manter viva, que a cabeça lateja. Dor de cabeça. Dor essa, que não é localizada, espalha-se. Para lembrar que tem uma cabeça, ela dói.
Isso também acontecia com todo o corpo. Doía para lembrar que existia. Porque ter um corpo era a sua angústia. O corpo é uma prisão, onde se está condenado a passar toda uma vida. Claustrofóbico!
Queria era não ter um corpo, e sair se esparramando mundo afora...Teria coragem para isso? Quem tem?
E, da janela, passando pelo túnel da visão, atingindo o olhar, ela sentia as coisas fora de si acontecendo. E refletindo incessantemente dentro de si. Estava presa dentro de seu corpo, e isso era viver.

2 comentários:

  1. Queria eu era não ter um corpo, e sair se esparramando mundo afora do que viver presa dentro de mim mesma. A diferença entre coisas e as pessoas, são que algumas coisas são reutilizáveis.

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  2. Pela janela do meu quarto te vejo passar, calada.
    Parecia que estava concentrada no final da rua, na verdade estava concentrada como os suas pernas a levava para o FIM da rua.
    O fim da rua?
    Evitava, não queria que o fim chegasse, tinha medo do que poderia encontrar quando chegasse na avenida.
    Porém, você chegou.
    Ficava olhando seu riso sarcástico e seus olhos se fechando de alegria.
    Nunca entendi o que você andou vendo, nunca soube porque sorriu desse jeito.
    Você nunca me disse.
    Só entendi uma coisa: Muitas pessoas lhe esperam no final da rua. (Principalmente garotos xD)
    Mais acho, que você encontrou quem queria encontrar lhe esperando lá.
    Nada a ver com o texto, mas postei isso porque é assim que lhe vejo.

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